10.5.06

Reviver o passado




O ZKM é um centro de arte e media situado na cidade de Karlsruhe. Durante a guerra neste edifício funcionava uma fábrica de munições. À entrada do centro há um placa que relembra as vitímas que aqui trabalharam e que muitas vieram a morrer.

Hoje mesmo encontram-se em frente a esta placa alguns sobreviventes da Ucrânia que foram deportados e forçados a trabalhar nesta fábrica. Alguns já quase não podem andar, mas vieram aqui, provavelmente uma última vez, para que o passado seja lembrado. Que não volte a acontecer. Pelo menos, até nos voltarmos a esquecer.

L.

27.4.06

4'33'' em video

L.

26.4.06

Musica regional

Dando uma olhada pelo programa da próxima temporada de concertos do IRCAM reparo que a obra Salut für Caudwell de H. Lachenmann terá a primeira apresentação francesa. Não será certamente a obra mais importante de Lachenmann, mas não deixa de ser curioso que uma obra de um dos mais importantes compositores alemães tenha a sua estreia em França passados quase 30 anos da primeira execução.

Por outro lado, compositores frequentemente apresentados no IRCAM como Yan Maresz, Lindberg, Riccardo Nova, Mauro Lanza (entre outros) são praticamente desconhecidos na Alemanha. Isto advém do facto de a Alemanha e a França serem Países que apoiam fortemente a produção de novas obras.

Para um País importador de produções, como é o caso de Portugal (embora nos últimos anos se tenha invertido esta tendência), tal facto pode passar despercebido, o que conduz a alguns equívocos. A globalização da cultura, de que tanto se fala, parece tornar-se numa espécie de nova utopia

L.

13.4.06

Essen - 2010

Essen foi escolhida para capital europeia da Cultura em 2010 juntamente com Istambul e Pécs (Hungria). De facto, este acontecimento pode fazer muito pela cidade, um pouco adormecida depois dos anos de crescimento ligados à extração de carvão em todo o Ruhrgebiet. Infra-estructuras há que chegue. Só para se ter uma ideia: em toda a região do Ruhr vivem cerca de 10 milhões de pessoas! Facilmente acessíveis por comboio estão as salas de concerto em Essen, Dortmund, Bochum, Gelsenkirchen, Duisburg, Düsseldorf, e outras cidades mais pequenas (cada uma com uma orquestra sinfónica, e algumas com uma casa de ópera) - para não falar de Colónia (um pouquito mais longe).

Faz parte da candidatura o ambicioso projecto de apresentar o ciclo de Stockhausen LICHT... sim, é verdade. Durante 7 dias será dado a ouvir o ciclo composto por 7 óperas (trata-se da estreia europeia) - uma para cada dia da semana. É uma oportunidade única. Lá estaremos... acho eu...

L.

Möbius strip

Música-Ouvir-Apreender--Compreender-
Percepcionar-Fruir-Perceber-Escutar-
Música-Escutar

L.

28.1.06

A má notícia

Leio no Público de ontem que o arquitecto Tomás Taveira foi nomeado para o conselho consultivo do IPPAR. A pergunta que me ocorre é: como é que alguém que foi expulso da Faculdade de Arquitectura de Lisboa pode ser nomeado para tal cargo?! É que, convenhamos, não se expulsa de uma universidade um professor Catedrático assim sem mais nem menos. No processo disciplinar que conduziu à sua expulsão ficou provado que o arquitecto pressionou outros professores para elevarem as notas do seu filho. Como é que alguém com uma conduta deste tipo pode ser nomeado para tal cargo?

Já nem digo nada sobre a estética que defende, nem sobre a sua sensibilidade em relação ao património – de resto, patente em cada uma das suas construções. Fica a ideia de que quanto pior, melhor.

Cronenberg again - a boa notícia

A retrospectiva de Cronenberg na cinemateca é uma óptima notícia para quem vive em Lisboa. Do programa constam alguns dos primeiros filmes do realizador como Stereo e Crimes of the future. É nestas alturas que gostaria de estar em Lisboa...

(já agora: alguém me pode explicar porque razão o site da cinemateca só se pode visitar com o internet explorer!? Esta dependência microsoftiana faz-me confusão).

24.1.06

Intermitente...


... é o ritmo a que este blogue regressa. A falta de tempo é muita. Mesmo assim, aqui fica uma contribuição para o aniversário que se comemora este ano. O momento é único!
Bom ano!

11.12.05

KAIROS

A Diana chamou-me à atenção para os dois discos saídos recentemente na editora Kairos. De Sciarrino, "Quaderno di Strada" é uma das obras mais estimulantes que pude ouvir nos últimos tempos. É daquelas obras de Sciarrino em que nos perguntamos como é que com meios tão reduzidos - com os gestos típicos de Sciarrino, curtos e sempre interessantes do ponto de vista instrumental - consegue escrever música com tal densidade. Sciarrino escreve muito. Nem todas as suas obras têm o mesmo nível. Mas Quaderno di Strada é uma daquelas obras em tudo parece perfeito. Não há nem uma nota a mais nem uma a menos. Tive a oportunidade de assitir à estreia da peça no festival de Witten de 2005. Também na estreia tocou o Klangforum Wien com o barítno Otto Katzameier. E que cantor! Do ponto de vista técnico parece impossível fazer o que está escrito. Mas Katzameier canta-o com a mesma intensidade e musicalidadde de um Lied do repertório tradicional. Simplesmente deslumbrante. link

De Grisey, um disco com obras já editaddas noutras edições. A novidade são as obras
Stèle e Charme. Creio que não existia ainda nehuma gravação destas peças. link

30.11.05

Autenticidade

„Música desta clareza ("Jeux" e "Sommernachtstraum") era até aqui desconhecida no caso da música contemporânea...“.

Wolfgang Rihm sobre Mouvement de Helmut Lachenmann

Mestre(s)

"Feldman is the one and only minimalist"
Gérard Grisey

24.11.05

Siringe

"A siringe é um instrumento formado por muitas flautas, cada uma dessas flautas é uma cana; (...)

Mas a siringe não era, na sua origem, nem uma flauta, nem uma cana: era uma donzela muito bela, que excitava as paixões. Ora bem, Pã perseguia-a numa corrida de amor, mas um denso bosque acolheu a fugitiva. Pã, que vinha no seu encalço, estendeu a mão para a apanhar. Pensava tê-la apanhado e presa pelos cabelos, mas o que a sua mão realmente tinha apanhado era uma madeixa de canas. De facto, dizem que ela desapareceu na terra, e que a terra, no seu lugar, produziu canas. Então, Pã, cheio de cólera, cortou as canas, supondo que escondiam a sua amada. Mas como não conseguisse descobri-la e pensando que a jovem se tinha transformado num canavial, lamentou os golpes que fez, julgando que tinha morto a sua amada. Assim, tendo unido os pedaços das canas como se fossem os membros e reunindo-os num só corpo, tomou entre mãos os fragmentos das canas à medida que as beijava, e o sopro, penetrando nas canas através dos orifícios, produziu sons, e a siringe teve voz. "

Aquiles Tácio: Os amores de Leucipe e Clitofonte.

L.

20.11.05

Populismos

Artigo do compositor escocês James MacMillan sobre o declínio do hábito de ouvir na Escócia. O problema escocês é certamente extensível ao resto da Europa. A questão da música "alta" e da música "baixa" volta a estar em cima da mesa.

The finished symphony

A estória continua aqui:

Composer's note of anger over music education, RICHARD GRAY

L.

16.11.05

Im-Klang-Sein

O contributo de Sloterdijk para uma possível classificação das músicas do nosso tempo. Uma interessante abordagem da música actual e a que correspondem diferentes atitudes auditivas:

1) a autêntica nova música
2) a performance music
3) a música de entretenimento
4) a música funcional

Interessante é que Sloterdijk põe no mesmo saco a música dita clássica (a das regulares temporadas de concertos) e a música pop. De um certo ponto de vista servem os mesmo objectivos de entretenimento das massas. Música sedativa, diz Sloterdijk.

[L]

4.11.05

Vermalung


Artigo (em Português) sobre Gerhard Richter a propósito da excelente exposição em Düsseldorf em Maio passado.

L.

Lachenmann: 70 anos

No próximo dia 27 de Novembro o compositor Helmut Lachenmann celebra o seu 70° aniversário. As homenagens à sua obra têm-se sucedido pela Alemanha e fora dela. Chegou a vez da Folkwang Hochschule Essen dedicar um concerto ao "inventor" da música concreta instrumental. Mouvement (-vor der Erstarrung) (1982-84) para ensemble vai ser interpretada. É uma das obras de referência no catálogo de Lachenmann. O seu final, caracterizado pelo perpetuum mobile que atravessa todos os instrumentos, é uma das várias citações/evocações que atravessam a peça. Neste caso a evocação é a do final "grandioso" e virtuoso das obras românticas e clássicas. Na parte central surge a enigmática citação da canção popular "O du lieber Augustinus". Como em muitas outras ocasiões ao longo da sua obra esta citação não é reconhecível através da audição da peça. Da melodia original restam apenas o ritmo marcado na partitura como HS (Hauptstimme) e por sons sem altura definida nos instrumentos de sopro, percussão e cordas. Este aspecto, o da distanciação entre a génese da obra e o resultado final, é algo de controverso, pois conduz-nos à ideia de intimidade: a esfera privada, o imaginário e as associações do compositor por oposição ao que é de todos, ao universal. Mas esse é talvez apenas mais um dos aspectos que fazem a obra de Lachenmann tão interessante, polémica, provocadora. Possivelmente, como a de todos os grandes músicos.

Parabéns Sr. Lachenmann.

L.

PS: Ao João, que também faz anos no mesmo dia: Parabéns!!

25.8.05

A técnica e o novo academismo

Recentemente tive a oportunidade de assistir a uma eloquente conferência no âmbito de um festival que reuniu todos os estúdios de música electroacústica alemães, bem com os estúdios de Basileia, Zurique e de Den Haag (*). O orador era precisamente deste último estúdio: Konrad Boehmer do Estúdio de Sonologia de Den Haag (outrora em Utrecht, o instituto tornou-se célebre, entre outros, devido ao trabalho de Gottfried Michael Koenig e a composição algorítmica). Boehmer é, para além de compositor, autor de numerosos artigos sobre composição, sobre estética, sobre música e política. Polémico e provocador mas ao mesmo tempo observador atento e crítico pertinente da situação da música actual, um dos seus artigos mais conhecidos tem o título de "Pensar a música anteontem ou Le Maître sans Marteau" (Musikdenken vorgestern oder Le Maître sans Marteau, in Musik-Konzepte H 100, IV/1998 (edition text + kritik) 5-30). A conferência – cuja transcrição foi agora publicada na revista NZM de Julho/Agosto (Neue Zeitschrift für Musik)– é uma crítica ao potencial academismo da música electroacústica. Uma velha questão especialmente pertinente neste contexto: a da técnica (neste caso tecnologia) versus pensamento musical. Boehmer fala da crescente complexidade dos “instrumentos” electrónicos e da prática impossibilidade de os compreender e controlar: “Quanto mais avançada é a técnica, mais o compositor está obrigado a se concentrar na organização técnica. O compositor tem, no entanto, apenas uma cabeça - se é que tem alguma.” Um aspecto que torna evidente o pensamento de Boehmer é o exemplo dos fractais. “Quando há cerca de 20 anos surgiu o fetiche dos fractais, saltaram imediatamente quintas e oitavas para a música electroacústica que soam como um “canto gregoriano progressivo“. Elevada e profunda tralha como cobertura da regressão estética.”

Todo o artigo põe em evidência a patente contradição entre a Ciência e a Arte personificada através da figura do acústico (segundo Pierre Schaeffer) e o músico; ambos ouvem o mesmo som mas os dois fazem-no de modos completamente diferentes. O cientista (o acústico) interessa-se pela redução do som em relação ao quantificável. O artista (o músico) classifica o som em relação ao seu potencial morfológico no contexto de uma obra.

O artigo termina com uma citação de Mann e um acrescento de Boehmer: <<“O artista é irmão dos criminosos e dos loucos” (e não do professor!)>>

20.8.05

Ainda Mann e Adorno


"Não consigo descrever a alegria que o capítulo do Dr. Fausto sobre Beethoven exerceu sobre mim. Nunca antes fora escrito algo tão profundo e exemplar sobre Beethoven.”
Bruno Walter, carta a Katia Mann, dezembro de 1945

19.8.05

Outono em Essen

Por aqui o Verão regressou há dois dias. É, com certeza, por pouco tempo. Normal por esta altura é o sol a espreitar e algum frio a atrever-se. As primeiras folhas de Outono já começaram a cair. Mas quando o Outono vier a sério não há nada que de comparável. A cor: vermelha, amarela, violeta e todas as outras impossíveis de descrever. E depois há o som. Do vento e das folhas.

Quem é que disse que a decomposição não é bela?

[LP]