15.1.05

Musicoterapia

Há pouco tempo assisti a um concerto memorável. András Schiff tocou as Variações Goldberg de Bach. Sublime.

Não deixa de ser interessante saber que esta obra resultou de uma encomenda muito específica: cerca de 1741 um embaixador russo que sofria de insónias pediu a Bach umas peças para serem tocadas durante a noite. Goldberg, o músico seu protegido, vivia num quarto mesmo ao lado, pronto para qualquer solicitação do embaixador. Bach achou que a melhor forma de responder a este pedido seria compor umas variações sobre um tema. Goldberg tocou, o embaixador adormeceu e Bach foi pago.

Hoje esta música ouve-se nas salas concertos. É objecto de pura fruição estética. Libertou-se da sua funcionalidade.

LP

3 Comments:

Anonymous Anónimo said...

Para a maioria das pessoas (não necessariamente os que frequentam salas de concerto), essa música continua a ter a mesma função.

A função não é estabelecida por decreto, mas sim por eficácia.

18 janeiro, 2005 00:49  
Anonymous Anónimo said...

Antes de mais, agradecemos o comentário! É um(a) dos(as) primeiros(as) a comentar o Decompor!

Certamente que a função de qualquer música não se estabelece por decreto. Quanto à eficácia, já não tenho a mesma opinião.

Não é alheio à sua função o facto de todas as 30 variações (Bach escreveu “Aria mit verschiedenen Veränderungen”, ou seja, “Ária com diferentes mudanças”) serem na tonalidade de Sol maior à excepção das variações 15, 21, e 25 que são em Sol menor, de qualquer modo em Sol - caso absolutamente fora do comum e que contribui, sem dúvida, para uma monotonia. Só à 15 variação (!) é que mudou a tonalidade, ao contrário, por exemplo, dos prelúdios onde cada um tem a sua tonalidade. Nunca estudei este aspecto em profundidade, mas parece óbvio que Bach terá pensado assim atendendo à encomenda. À parte deste aspecto da tonalidade, as variações são bastante diferentes umas das outras e a escrita sugere andamentos acentuadamente díspares.

Agora, é possível contemplar uma obra de arte independentemente da função para que foi originalmente escrita e não apenas num concerto. É assim com a Marcha Fúnebre de Chopin, com as marchas nupciais de Medelsohn e de Wagner, com as cantatas de Bach, com as missas de Mozart, com as danças, enfim, com quase toda a música barroca e alguma desde Beethoven.

Não sei se a função das Variações continua actual, nem o que acontece à maioria das pessoas quando as ouve em casa sentado no sofá. Se adormecem ou não. Também se pode adormecer a ouvir a Nona Sinfonia de Beethoven.

Facto é que a partir do momento em que as Variações são tocadas em concerto, a sua função muda.

Skoteinos

18 janeiro, 2005 18:27  
Anonymous Anónimo said...

para adormecer basta ter sono (fenómeno natural)...

20 janeiro, 2005 23:07  

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