14.2.05

Coisa terceira - decomposição

Eu não queria acreditar no que li no Domingo de manhã no blog tonalatonal do Sérgio Azevedo. O SA passou-se. A sério. O post tem o título „Forever Martinu“ – entretanto corrigido, acho que fez bem, porque da forma como aquilo lá estava... Mas mesmo em tom mais moderado, há coisas às quais vale a pena dar maior eco. São revelações. Senão vejamos:

1) As miniaturas de Webern passam a ser “minúsculos rebuçadinhos atonais”. É deveras interessante de constatar como a dicotomia tonal/atonal está (ainda) no centro da discussão musical.

2) As peças de Cage passam a ser “bricolages experimentais” e o 4’33’’ “o maior bluff da história da música”. Ponto final. Está tudo dito. Tudo justificado.

3) Continuando: Martinu, o compositor injustiçado pelos que escrevem as histórias da música, “o grande génio”. Esta é para mim a maior revelação de todas.

4) Para concluir que "o Bolero de Ravel é [conceptualmente] mil vezes mais interessante (é um enorme crescendo...), muito anterior em termos de data de composição e, claro, muito superior em termos do resultado musical“. Aqui começa-se a perceber. Ficámos a saber que SA é detentor do critério absoluto – o musical - com que compara Cage a Ravel. Uma vez possuído pelo critério com que revela a verdade a conclusão é simples: Ravel é mil vezes melhor que Cage.

Gostos todos temos, mas dizer isto,... não sei, se calhar sou eu que estou deslocado.

LP

21 Comments:

Anonymous João Miguel Pais said...

Infelizmente tal gesto passou despercebido no mundo virtual, ou então os músicos que têm blogues não sentem (e quem não sente, não é filho de boa gente).
Esperemos que no desempenho das suas funções académicas ele seja um pouco mais profissional e responsável, ou pelo menos não tanto primariamente reaccionário.
Se o Martinu realmente é o melhor compositor que já existiu, todos estaremos interessados em compreendê-lo tal como o sa o compreendeu, se ele se dignar a explicar a questão claramente, em vez de atacar tudo e todos (excepto Martinu, claro está).

17 fevereiro, 2005 11:24  
Blogger cesar de oliveira said...

ou então, joão, assume-se logo a priori que o ponto de partida para tal problemática é anacrónico e não se dá mais atenção que a mínima.

19 fevereiro, 2005 15:48  
Anonymous João Miguel Pais said...

mas aí é que se tem todo o motivo para dar atenção. Que é anacrónico todos sabem, mas deixar passar é que não vale a pena.

19 fevereiro, 2005 16:04  
Anonymous Ex-estudante de composição said...

O vosso problema é não aceitarem opiniões diferentes das vossas, já fui espreitar ao blog ao Sérgio Azevedo esse post e não vi lá nada do que vocês dizem que viram. Ele não proibe ninguém de ouvir seja o que for, e está no direito de não gostar do Cage, eu também acho aquilo abominável, no mínimo, aborrecido, o homem nunca aprendeu a compôr, não sabia, o Schoenberg bem tentou, mas não conseguiu ensinar-lhe nada...

Porque é que temos de levar com charlatães musicais só porque alguns iluminados acham que aquilo é música e ficam escandalizados quando alguém tem tomates para dizer a verdade? E porque é que o termo "atonal" ligado ao Webern é perjurativo? Webern é atonal, ou não é? Se fosse a falar de Chopin se calhar o Sérgio Azevedo usaria o termo rebuçadinhos tonais, o termo depreciativo são os rebuçadinhos e não a designação tonal ou atonal, isso é apenas a caracteristica da música. Vocês é que reajem mal ao termo atonal, não o Sérgio Azevedo, de quem tive a honra de ter sido aluno a várias disciplinas, incluindo a composição e a orquestração, e com quem muito aprendi, embora agora não exerça a arte, pois dediquei-me a outras actividades dentro do mundo musical. Ele sabe música a sério e conhece praticamente tudo o que há para ouvir, sabe os catálogos dos compositores de cor...como ele, só o Carrapatoso, com quem também trabalhei e que é um dos poucos compositores das novas gerações deste país que valem mesmo a pena (Eurico Carrapatoso, António Pinho Vargas, Luís Tinoco, Nuno Corte-Real, Alexandre Delgado, Eugénio Rodrigues, Sérgio Azevedo). Para vossa informação, ouvi de tudo nas aulas dele. Claro que quando ele não gostava de uma coisa, me dizia, para isso é que servem as aulas de composição, mas disse-me também para ouvir tudo, e depois decidir por mim.

Ou imaginam que o vosso querido Emmanuel Nunes ouve de tudo nas aulas dele, ou não diz mal de quem não gosta? Mas a esse vocês não o criticam, nem acham que se passou quando diz aquelas barbaridades sobre alguns compositores do século XX. Dupla moralidade, já se vê...

O que vos preocupa, e por isso é que reagem mal, é que muito possivelmente, ele tem razão, os ventos estão a mudar, e os vossos ídolos estão a desaparecer. Somente a Gulbenkian toca Emmanuel Nunes, já repararam? Mais ninguém o toca ou grava, a não ser que a dita Gulbenkian patrocine o CD. Tentaram recentemente um festival dele em Inglaterra e foi um fiasco de tal maneira que eles nem falam disso! Ouçam a Orquestra Gulbenkian a falar das obras do Nunes que são obrigados a tocar e até ficariam verdes com os comentários...eles pura e simplesmente odeiam aquilo, não há 1, repito, 1 músico da orquestra que goste de tocar a música do Nunes, e ainfda por cima obrigados, pois ele é o queridinho do serviço de música, pelo menos, até morrer, depois fazem como com o Xenakis, de quem eram muito amigos, e que tocavam sempre, mas mal ele bateu a bota, adeus Xenakis, nunca mais o ouviram por aquelas bandas!

E quem diz Nunes, diz Cage ou outros que vocês citam aqui e de quem o Sérgio Azevedo nem sequer falou, pois acho que o post dele até era mais no gozo provocatório que outra coisa, pois conheço-o bem. Mas a vossa reacção é que foi engraçada. Picaram-se logo! O vosso problema é que nunca chegarão aos pés do Sérgio, e a música dele soma e segue, como soi dizer-se. E a vossa? Quem a toca? Quem a ama? Os amiguinhos, talvez...

Tentem ser mas é mais humildes com quem sabe mais que vocês e já viveu mais, e aprendam a colocar-se no vosso lugar antes de fazerem críticas a quem está muito acima de vocês no plano espiritual e musical. O mesmo se aplica a dizerem mal do Carrapatoso ou do Delgado, de quem aposto vocês também acham que não prestam, só as fraudes é que são boas para vocês.

Passem bem, continuem na ignorância, mas depois não fiquem admirados se ninguém quiser ouvir as vossas peças. Estará tudo explicado...

20 fevereiro, 2005 19:14  
Anonymous ex- teu colega said...

Estás deslocado, estás, Luís, pareces uma virgem embaraçada quando alguém toca nos teus ídolos...

20 fevereiro, 2005 19:53  
Anonymous sine nomine said...

Mas vocês conhecem suficientemente Martinu para saberem se o SA tem razão ou não? É que tenho a certeza que ele, pelo menos, a julgar pelas aulas que tive com ele, conhece tanto o Martinu como os outros que refere depreciativamente, enquanto vocês tenho a certeza que só conhecem esses, e se calhar até mal...mas quem são vocês para virem para aqui arrotarem postas de pescada em relação a nomes grandes da música portuguesa?

21 fevereiro, 2005 14:08  
Anonymous virgem desembaraçada said...

Pena que a música portuguesa seja tão pequenina que até os nomes grandes são difíceis de ver...mas continuarei á espera que esses "grandes nomes" venham salvar a "Sodoma e Gomorra" em que ( pelos vistos) está afundado o mundo da música ( Clássica , claro está que o outro está bem e recomenda-se). Ainda bem que tenho uma poltrona confortável e tempo, muito tempo

21 fevereiro, 2005 21:24  
Anonymous João Miguel Pais said...

Caro Ex-Estudante, permita-me comentar o seu comentário (sigo a mesma ordem pela qual o escreveu, mas não coloco os extractos originais para não ser demasiado longo):

felizmente vivemos numa democracia, onde a cada um é permitido gostar do que quer. Tal como ao Sérgio Azevedo é permitido não gostar de Cage e gostar de seja quem for, a mim é permitido gostar dele e não gostar de seja quem for. Nem me incomoda que alguém não goste de Cage ou de quem seja. Mas o que me incomoda é quando alguém afirma algo sem sequer argumentar, sem sequer tentar expor um raciocínio, apenas por pura exaltação.

Quanto a não saber compor, o Cage não quis aprender a compor com o Schönberg não porque ele não quis, mas porque não lhe fazia sentido. Tal como o próprio relata, o Schönberg disse-lhe que não era um compositor, mas um inventor. E foi assim que Cage seguiu o seu caminho.

Quem é o charlatão e quem é iluminado? Ninguém chamou nada a ninguém, e também não sei dizer quem tem razão. Provavelmente ninguém.

Não considero perjorativo chamar "atonal" ao Webern, antes pelo contrário. Mas "rebuçado" sim. Para mim isso demonstra uma falta de respeito para alguém que trabalhou bastante para juntar as suas notas. Em anos de trabalho Webern compôs apenas 3 horas de música, mas de uma intensidade enorme (ao passo que Sérgio Azevedo compõe mais de 3 horas de música por ano). A sua importância não se nota apenas na sua música, mas na capacidade que teve de influenciar compositores das gerações seguintes (entre os quais se encontra Kurtág, ao qual presumo que não irá chamar nem de charlatão nem de iluminado, já que a sua música "soa bem").

Alegra-me que tenha ouvido de tudo durante o seu ensino. Espero que continue a ouvir.

O Emmanuel Nunes não é meu querido (no máximo será o querido da sua companheira actual), nem sei o que ouve, mas sei que se pode discutir qualquer coisa com ele, talvez até você ficasse surpreso... eu pelo menos fiquei, quando um músico de improvisação lhe trouxe vários cds e ele já os conhecia praticamente todos. Não sei de que barbaridades você está a falar, se for mais concreto poderemos discutir isso...

Em Portugal, não é só a Gulbenkian a tocar Nunes, esqueceu-se do Remix, que o toca cada vez mais frequentemente. Ou também alguns solistas, ainda não muitos, que as suas peças são muito difíceis. E talvez fosse mais tocado se ele próprio o permitisse, já que ele não gosta de ser mal interpretado, e se pode dar ao luxo de não ser tocado quando não quer. E também é bastante tocado na Alemanha e em França, onde ele está fisicamente presente e exerce a sua actividade, pelos melhores solistas e ensembles. No ano passado saíu um cd a solo com as suas Lichtungen (tocadas pelo Intercontemporain e o seu maestro titutlar), e já procurei no cd, mas não encontro o símbolo do patrocínio da Gulbenkian - mas se estiver enganado pode-me corrigir. Não sei em que festival de Inglaterra o Nunes foi tocado (diga mais concretamente qual é), mas tenho a certeza que se tocarem Sérgio Azevedo na Alemanha ou em França também não será bem amado. Mas conheço um maestro e compositor inglês, Edwin Roxburgh, que ao ouvir uma obra dele no Porto em 2000 ficou extremamente emocionado (foi o único no público a aplaudir de pé), e cumprimentou-o bastante calorosamente.

Em relação aos comentários de músicos de orquestra, eu não ligaria muito aos seus comentários. Maior parte deles estão lá a fazer horas, e não lhes interessa muito que compositores tocam, é uma deficiência profissional de preencher uma função anónima. Se for ouvir o que muitos dizem depois de tocar Bruckner, Mahler, ou Wagner, vai ver que os comentários não serão muito diferentes, o que interessa a maior parte é que não tenham que estudar muito a sua voz, que o maestro não seja chato e que o concerto acabe depressa para irem para o bar com os colegas... E é claro que são obrigados a tocar, é o seu trabalho, já viu alguém que possa dar-se ao luxo de dizer que não quer trabalhar numa noite, seja em que emprego for? Só se fizerem como fizeram vários da Sinfónica Portuguesa, que quando foi tocado o Le Grand Macabre no São Carlos meteram férias - e diga-me se considera Ligeti também um charlatão e snob. (mas não me diga que nos concertos com música de repertório - da bonita, claro está, ou mesmo da música do Sérgio Azevedo - todos os músicos trabalham com um vigor e energia contagiantes) Esses problemas não têm muito a ver com a música, já pertencem a outros campos.
Mas quem conheço são os solistas e grupos de câmara de grande qualidade, que tocam a música do Nunes com grande prazer e dedicação. Como vários solistas do Intercontemporain, que tocam obras do Nunes correctamente e de cor, onde praticamente a cada compasso há uma mudança de tempo, e algumas nada fáceis de conseguir.

Em relação ao comentário ao Xenakis, então irá dizer o mesmo entre o Jorge Peixinho e o GMCL: depois da morte do Peixinho, o GMCL não teve actividade durante vários anos, e só recentemente tem voltado devagarinho. Não me diga que secretamente nenhum dos seus companheiros gostava do Peixinho.

Eu não sei em que tom o poste original foi escrito, mas sei que se alguém afirma algo, é para levar a sério, a não ser que seja explícito o teor. Se não for para levar a sério o que ele diz, então é outra coisa. Nós fomos picados, mas parece que não fomos os únicos.

21 fevereiro, 2005 22:20  
Anonymous Anónimo said...

É pena que o próprio Sérgio Azevedo, que pelos vistos levantou aqui tanta polémica não tenha nela participado para explicar em que termos, gozo ou a sério, colocou aquele post, que eu pessoalmente não acho nada de mais, dizer que o Cage é bluff é tão válido como o Leibowitz dizer que Sibelius era o pior compositor do mundo. Ambas são exageradas embora possam ter laivos de verdade.

No entanto há uma coisa que me perturbou em relação a um comentário sobre o Webern, que eu pessoalmente também não aprecio por aí além, e não considero o temro "rebuçadinho" exagerado desta vez, pois são minúsculas as peças e não vejo onde está a tal intensidade que referem. No entanto gostos são gostos. O que me incomodou foi um de vocês dizer que em troca, o SA compôe três horas de música por ano. Bem, eu não sei quantas ele compôe nem conheço muito o que ele faz, sou apenas um curioso, mas por que é que isso é mau? Não se podem compôr três horas de música por ano intensas? O Mozart, o Vivaldi, o Bach, o Wagner, o Villa-Lobos, o Martinu, o Milhaud, o Hindemith, o Rihm, e muitos outros compositores ao longo da história da música compuseram toneladas de música, muita dela boa. Porque é que o Webern é intenso só por ter feito meia dúzia de minutos na vida? Não será antes por ter pouca inspiração e ideias? Já pensaram que pode ser apenas isso e mais nada? O falla também fez poucas obras, porque tinha dificuldades em compôr, o próprio falava disso, por problemas nervosos. Compor muito ou pouco é uma caracteristica pessoal que só tem a ver com a pessoa, e nunca pode ser usada como crítica da qualidade. Há músicos que escreveram muito e quase tudo é bom, ou pelo mneos, tem qualidade técnica constante (Bach, Mozart), e outros que escrevram muito pouco ou pouco e que não são nada de especial. E, já agora, o facto de um músico lançar novos caminhos para o futuro não é um critério de qualidade, aliás, a maior parte desses caminhos foram abertos por compositores de menor craveira, em cujas invenções outros melhores pegaram. Creio que webern foi um desses, um mestre-escola competente, não muito inspirado nem muito musical, que encontrou novas maneiras de juntar os sons. Acontece que, a música é mais que novas maneiras de juntar os sons, a música tem de falar às pessoas, e a música de Webern não o faz, é apenas uma música de especialistas. Aliás, todos os grupos que vocês mencionaram que tocam Nunes e outros, se repararam bem, são grupos especializados, que tocam aqui e ali algumas peças de vez em quando, e apenas em Portugal, França e Alemanha. E sim, a maior parte dos eventos ligados a Emmanuel Nunes são aptrocinados pela Gulbenkian, mesmo que lá não apareça o selo. Não é segredo para ninguém a protecção absolutamente cortesão de que Nunes goza nessa casa, em detrimento de outros compositores que nunca lá entraram ou que não têm as mesmas benesses e que valem, quanto a mim, muito mais. E para terminar, frequentei durante anos os cursos do Emmanuel, e vi coisas que me levaram a abandonar para sempre os mesmos cursos, o António Pinho Vargas fez o mesmo, e muitos outros. Desde humilhar alunos, até ser intolerante, até recusar-se a falar de certos compositores. É pena que a ele vocês não o critiquem, mas já compreendi a filosofia deste blog: atacam nos outros aquilo que vocês mesmos praticam.

É pena, lamentavelmente é pena.

21 fevereiro, 2005 23:01  
Anonymous João Miguel Pais said...

Posso dizer que a mim o termo rebuçadinho incomodou-me porque o o substantivo juntado ao diminutivo para mim têm um carácter depreciativo de um pequeno objecto sem valor, apenas decorativo e que incomoda - tal como os rebuçadinhos que são consumidos com estertor durante os concertos.
Fui eu que no meu comentário anterior disse que o SA compõe pelo menos 3 horas de música por ano, mas disse-o apenas porque é um facto. O ponto que enunciou era exactamente o meu: alguns compoem na vida toda o que outros fazem em alguns meses. Não queria incidir o foco no SA, mas no Webern, se o texto não é claro, então é a minha culpa. Um pormenor interessante: o próprio Webern ao ouvir mentalmente as suas partituras estava tão concentrado, que ao indicar a duração da peça escrevia sempre um número bastante maior (às vezes quase o dobro).
Não considero Webern intenso por ter composto apenas 180 minutos na vida, mas o inverso: porque só compôs tão pouco na vida é que a sua música resultou tão compacta, densa (não na quantidade) e sim, intensa. Não sou especialista em Webern, mas não concordo que ele não tivesse pouca inspiração e ideias. Tal como se lê no prefácio do Op. 9, escrito pelo Schönberg, ele diz com uma nota o que outros conseguem apenas em um andamento (cito de memória, pode ser o Op. 5).
Em relação a ser pouco musical, não concordo. Há relatos que ele foi um grande maestro, especialmente com a música de Mahler. Inclusivamente há várias gravações suas (como maestro da sua e de outra música) nos arquivos da BBC que nunca foram publicadas, mas alguns musicólogos que já ouviram dizem que são fantásticas (esta informação foi-me relatada, infelizmente não posso dizer se é verdade ou não).

Eu discordo com a frase seguinte: é difícil lançar novos caminhos para o futuro, de forma a ligá-los consequentemente com o passado. Claro que apontar direcções é fácil, basta ser um pouco criativo, ou não conhecer as bases bastante bem. Mas mais cedo ou mais tarde se reconhecem os limites.

Toda a música (ou qualquer outro fenómeno) pode ser um fenómeno de especialistas, ou não, dependendo como se aborda. Desde Stockhausen ou Xenakis até à Dança dos Pauliteiros - isso é um problema do ouvinte. Alguém que consiga dizer que nota de que versão da série está a ser tocada está a ouvir a peça bem? Eu penso que não. Tendo em conta a abordagem excessivamente académica, é claro que a música se torna seca, ou nem se lhe chega perto. A mim pessoalmente não me agrada estar debruçado numa peça a contar números, e sugiro analisar uma obra dodecafónica de Webern sem sequer procurar uma série - há lá muitas coisas interessantes para ouvir. Pelo menos foi o que fiz com o Concerto, e achei uma abordagem interessante, ou pelo menos fiquei contente porque a "oficial" não é a única, e não é a melhor.

Os músicos que mencionámos são músicos especializados, sim, porque tomaram uma decisão profissional de trabalhar apenas um tipo de música. Se for a um blogue falar de música antiga, verá que é muito pior que aqui - não só é proibido tocar música de cravo num piano, como não se pode tocar música francesa num cravo holandês, ou não se pode substituir uma teorba por um chitarrone (para isso poderão consultar os arquivos do "crítico"). Também é um ghetto, tal como todos os outros. Mas essa problemática tem também muito a ver com o corrente ambiente do ensino e do mundo profissional. Também há especialistas de Beethoven, Schubert, Chopin... o que há cada vez menos são pessoas que consigam tocar todo o tipo de música, como o Quartetto Prometeo, que no mesmo concerto toca Scelsi, Schumman, Sciarrino e Scarlatti. Mas penso que estes problemas têm muito pouco a ver com os compositores. Conheço músicos que só tocam música antiga, músicos que só tocam música moderna, músicos que só tocam música entre estas duas (porque a cultura oficial de concertos só começa com Bach), e músicos que tocam todos os tipos. Se alguém não tem o interesse ou a capacidade para abordar um certo tipo de obra, não deve ser obrigado a isso, e eu respeito mais quem diz que não gosta e não quer tocar algo que quem inconscientemente faz um mau trabalho, porque não tem capacidade ou vontade para se dedicar completamente a uma peça.

Claro que não é segredo que o Nunes é um produto da Gulbenkian e do Pereira Leal - metade das suas obras foram encomendadas pela Fundação, está no seu catálogo. Mas independentemente se se gosta ou não, a quem é que se reclama, à Gulbenkian? O que poderão eles fazer, arrumar as malas, dissolver a orquestra e coro e voltar para a Arménia? O dinheiro é deles, eles fazem o que querem dele. Também não acho correcto que dêm pouco apoio a outros compositores (embora sempre tenham dado apoio a bastantes compositores e nos últimos anos a tendência seja mesmo muito diferente, já houve dois seminários onde os aunos puderam apresentar obras para orquestra - e isto não acontece em toda a Europa), mas se eles não têm deveres para connosco (que eu saiba), não temos também nós direitos para lhe impor. A Gulbenkian nunca pertenceu a Portugal (não é engraçado que o maior apoiante da música portuguesa não tem sequer nome português?).

Já agora, uma outra coisa, que não sei se no meio do discurso se mantém clara ou não: pela minha parte não estou aqui para defender Nunes, Webern, Cage ou quem quer que seja. Mas o que me incomoda é que alguém que tem responsabilidades no ensino em Portugal e que de certeza que gosta de ser levado a sério discuta estas coisas de modo tão leve, sem apresentar argumentos. Ele diz que Nunes é chato, eu digo que não, outro dirá "de vez em quando". Onde é que isto leva?
Eu penso que não estou a atacar ninguém, estou a tentar apresentar argumentos e a responder calmamente aos comentários que aqui foram postos. Para procurar ataques basta ler alguns dos pequenos comentários gritantes que se encontram mesmo neste blogue (ou noutro qualquer), cujo autor com um clicke poderia apagar, ou então retirar mesmo a possibilidade a outras pessoas de deixar o seu contributo. Entre dar uma opinião e fazer um ataque há uma grande diferença, penso eu de que.

O Pena é o autor do Blogue. Eu sou o Pais.

22 fevereiro, 2005 10:28  
Anonymous curioso recente said...

Mas eu não tenho de dar argumentos para achar uma coisa chata, acho-a e pronto. A arte é como o amor, não tenho de explicar porque é que gosto de tal rapariga, nem há nada para explicar. Ou se gosta ou não se gosta, e talvez tenha sido nesse contexto que o Sérgio Azevedp escreveu esse post. Eu por acaso, não adoro assim tanto o Martinu, mas percebo que alguém goste dele mais que Webern e até o considere melhor, é uma questão de empatia. É como achar melhor Verdi que Wagner, ou Mahler que Brahms. Também pela leitura dos vários posts ainda não percebi porque é que é tão escandaloso considerar o Martinu melhor que o Webern e até dizer isso nas aulas. Quem decide quem é melhor que quem? Ou há uma história da música oficial dogmática? Esse era o intento do Boulez, e falhou, agora a história está a reescrever-se. Eu, como já disse, gosto muito mais de Webern que de Martinu, mas não considero um superior ao outro em termos técnicos. Cada um escreveu o que quis e bem. Irrepreensível. Agora, o Webern fez mudar algumas coisas na história da música, o outro não. Mas Bach também não fez avançar a história da música por aí além...

22 fevereiro, 2005 18:50  
Anonymous Anónimo said...

O que vos doi é que ninguém ouve o Webern nem o Cage nem o Nunes, enquanto os Prokofievs, os Stravinskys, os Poulencs e muitos outros são ouvidos pelas grandes massas, destino que nunca terão os que vocês tanto apreciam. Sabiam que a Ricordi até já tirou as peças do Nono do catálogo desde que foi comprada? Meus, ninguém quer saber daquilo, mais uma década ou duas e está tudo terminado, foi como se nunca tivessem existido. Ora tomem lá!

22 fevereiro, 2005 19:30  
Anonymous Mafaldinha said...

Este comentário chegará talvez um bocadinho mais tarde do que devia,é que não consigo vir ler o blog todos os dias....são apenas comentários de comentários...não se ofendam....
1.Caro Ex-extudante de composição, lamento ter de dizer-lhe que o Sr. Pais tem razão no ponto em que refere que a musica de Emanuel Nunes é realmente tocada em outros círculos musicais que não a Gulbenkian. Escutei concertos da sua música em Londres , em Paris , em Munique...quero eu dizer que estive fisicamente lá, ninguém me contou, e repare-se coincidêcia das grandes , o mundo é mesmo tão pequenino,quem havia de dizer-me que acabaria, poucos anos depois desse concerto em Munique, de trabalhar com o mesmo ensemble que tocou Emanuel Nunes. O mais interessante é que assim que souberam que eu era portuguesa todos me falaram do dito concerto, da dita peça,a maior parte do músicos gostou dela , gostou de a tocar, apesar das dificuldades de interpretação, mas isso nunca foi entrave , para um bom músico, de se interessar por uma (boa ou má)peça musical, alguns até chegaram a pedir-me partituras de outras peças dele.
2. Caro curioso recente...se tudo fosse tão fácil e claro como apaixonar-se por uma linda rapariga eu seria de facto lésbica
3.Caro anonymous....eu conheço gente de sobra que ouve e toca Nono , Cage, Webern e Nunes...eu própria inclusive sem ter de excluir Prokovieff, Poulenc, Verdi e muitos muitos mais....também não me dói nada que não sejam ouvidos pelas "massas" que convenhamos na musica clássica não se pode falar de massas...só se forem massinhas para a sopa, felizmente ou infelizmente segundo os critérios e bom senso de cada um. Quanto ás previsões do futuro ou não futuro de certos compositores só lhe posso dizer uma coisa bem simples e bem portuguesa, como dizia o outro : Prognósticos só no fim do jogo.
A propósito, não se ponham agora a criticar a minha música que eu não sou compositora, por isso não se esforcem.
( já estou á espera do famoso comentário : pois, nota-se...)
( e João , não precisas de agradecer o Sr.....estavas mesmo a pedi.lo...;-) )

22 fevereiro, 2005 21:36  
Anonymous Mafaldinha said...

Esqueci-me de uma coisa: contrataram-me para fazer uma peça de Nono num concerto, Nono...vejam lá....e até vou ser paga e tudo... ;-)

22 fevereiro, 2005 21:43  
Anonymous Anónimo said...

Os meus pêsames. Claro que lhe pagam, mas alguém toca essas merdas de borla? E claro que há sempre alguém que toca, eu não disse que não havia, disse só que a maior parte não quer saber disso para nada, apenas uma meia-dúzia ainda acha que aquilo é música. Ficará como uma curiosidade, daquelas que se vai ver por curiosidade e não por amor, como quem vai ver o urinol do Duchamps, quem ama aquilo? ninguém,mas é da praxe dar uma espreitadela, ao fim e ao cabo não é todos os dias que um maluco espeta uma sanita na parede e aquilo vale milhões por estar na parede...

23 fevereiro, 2005 11:02  
Anonymous Anónimo said...

Só sei uma coisa, é que enquanto aqui se discute o sexo dos anjos e o silêncio e a estranheza e o raio que o parta menos música a sério, a música dos melhores compositores portugueses vai seguindo o seu caminho imperturbável. Ninguém toca o Nunes a não ser a Gulbenkian, mas vejam a quantidade de peças que todos os anos são tocadas do Sérgio Azevedo, do Eurico Carrapatoso, do António Pinho Vargas, do Luís Tinoco, do Nuno Corte Real, enfim, de todos aqueles que neste país sabem o que estão a fazer, têm técnica, gosto e sentido da modernidade. os serôdios do neo-serialismo estão moribundos, e a prova é a vossa reacção violenta às palavras do SA no seu blog. Só reage assim quem se sente derrotado, é o estertor do moribundo. Curioso é o SA nem sequer se ter dignado responder-vos, pois provavelmente para ele as vossas questiúnculas sobre música-que-não-é-música não lhe interessam. É que ele é músico, com M grande, e ama a música, como muitas vezes o provou nas suas aulas e nos programas de rádio que eu sempre segui com grande interesse. O mesmo direi do Carrapatoso, outro grande mestre da música em Portugal, aliás, penso que são os dois melhores compositores em actividade nos nossos dias aqui neste país. A seguir coloco os outros nomes que citei acima. E viva também Martinu, de quem gosto bastante, muito mais que do vosso patético Webern, como um amigo meu já classificou as suas peças para orquestra opus 6 e opus 10: "Peidos Sinfónicos", e dos que cheiram mal...

24 fevereiro, 2005 17:01  
Anonymous Mafaldinha said...

Caro anonymous, não desprezando a musica dos compositores que referiu, que não estou aqui para atacar ninguém e muito menos para me chatear embora já tivesse estado mais longe, o mundo da musica contemporânea não se resume só a Portugal...há outros países, outros compositores , outras " músicas"...

24 fevereiro, 2005 23:01  
Anonymous Anónimo said...

Claro que há, e julga que não os conheço? Julga que lá por fora a situação é diferente? Vá aos EUA e veja quanta dessa música se toca, vá a Inglaterra e veja quanta dela se faz, exceptuando os queridos ingleses, chauvinistas como são, lá vão tocando Birtwistle e Davies e Adès, os franceses e alemães idem. mas deu-me razão. Falou no Nunes e é tocado em...Munique, ou seja, Alemanha e França, países onde viveu e vive, mais a Gulbenkian. E é muito pouco tocado mesmo assim, e sempre em ocasiões especiais. Convençam-se de uma coisa: esses compositores (?) não fazem parte da vida musical habitual, são sempre excepções toleradas porque, enfim, há que ser pluralista, não é? Agora pergunte ás pessoas se gostam, se ouvem, se conhecem até...nem agora nem nunca. Webern continua a ter tão pouca adesão agora como há 60 anos, quando morreu. O seu público não aumentou, e nem aquela velha ideia de que o seu tempo há-de chegar, é válida. O tempo desses senhores nunca há-de chegar porque a sua música, e há que dizê-lo de uma vez por todas, independentemente de ser inovadora ou estrutural ou o raio que a parta (mas quem é que quer saber disso quando está a fruir música?), pura e simplesmente é uma bela chatice, um aborrecimento, um nada mascarado de alguma coisa, envolvido em teorias que não chegam nem substituem o simples facto de ali não haver...música.

25 fevereiro, 2005 01:02  
Anonymous Mafaldinha said...

Pelo menos noutros países nunca ouvi atacar desta maneira compositores seja qual for o tipo de música que compõem... cada um tem direito á sua opinião , claro está, pode e deve-se discutir sobre música mas não atacar a pessoa que a escreve desta maneira tão pessoal, independentemente de se gostar ou não , ou de se achar que determinada música tem ou não um determinado valor ou função estético ou pedagógico. Com isto quero dizer que há que respeitar a legítimidade e o trabalho de quem compõe,e de quem interpreta e ouve a música que a si não lhe interessa. Que tenha uma opinião contrária à minha não me incomoda , pois essa é a base para uma discussão em que cada um de nós pode aprender um pouco mais, ou não ( que também acontece e não é por aí que nos temos de chatear),o que eu não aceito são os fundamentos da sua opinião, está practicamente a propor uma "dizimação" de determinados géneros musicais só porque como diz não são ouvidos pelas massas ( que como já disse anteriormente não creio que se possa falar nestes termos do mundo da música clássica) será então razão para si que certa musica contemporânea desapareça, imagine-se então um fã da Britney Spears vir encher-nos as orelhinhas dizendo que toda a música clássica não passa de uma perda de tempo e dinheiro porque não arrasta nem vende milhões...eu acho é perigoso e muito pouco tolerante rotular não só os compositores que não gosta depreciativamente como também quem os ouve e / ou interpreta como gosto e interesse....achar Nono , Cage ou Nunes interessante nunca foi entrave para mim pessoalmente como indivíduo e como música de ouvir ( e gostar sinceramente)muitos dos compositores que referiu e de quem gosta....como vê também há pontos em comum entre nós...ser tolerante e ter uma mente aberta , não só frente em relação á música como em relação a tudo neste mundo torna a vida mais interessante e colorida.... e convenhamos que chamar chauvinistas aos ingleses não é uma atitude nem aberta nem tolerante....e convenhamos música pode ser tanta coisa....

25 fevereiro, 2005 11:10  
Anonymous Anónimo said...

Estamos a pagar na mesma moeda com que os vossos ídolos, Boulezes, Nonos, Stockhausens e muitos outros mimosearam durante décadas Sibelius, Martinu, Prokofiev, Roussel, Janacek, Britten, Chostakovitch...a lista vai longa. Será preciso continuar? Cá se fazem, cá se pagam, e agora é a vez deles de pagar os ataques que fizeram a estes grandes músicos.

25 fevereiro, 2005 15:33  
Anonymous João Miguel Pais said...

Caro Anonymous (penso que seja sempre a mesma pessoa),

já reparou que estamos a tentar dialogar consigo, e a usar o nosso tempo para elaborar argumentos de modo construtivo (penso eu) para que possamos tentar chegar a um ponto comum?
Se você quer continuar a desrespeitar a sua pessoa, é consigo, mas por favor, não nos desrespeite a nós, que penso que não fizemos nada para isso. Você fala de ataques e injustiças, mas até agora não o vi esforçar-se para elaborar nenhum argumento, para além de dizer "música contemporânea é uma merda", "os grandes compositores vão ser vingados" e outras coisas. Se fossemos nós os atacantes, nem tentaríamos responder aos seus comentários, e eles seriam imediatamente apagados, julgo eu (e já agora, digo-lhe que é algo que não se faz aqui, mas faz-se no blog do Sérgio Azevedo).
Se você não gosta de discutir, então não discuta, que não é obrigado. Mas se o quiser fazer, então tente um pouco, e verá que o resultado será bastante mais produtivo (para si e para nós).

Não percebo o que quer dizer com os "nossos ídolos". Eu gosto de Boulez, gosto de Bach, gosto de Frei Manuel Cardoso, Kundera, Lobo antunes, gosto de muitas coisas, e não gosto de outras. Sou um tipo perigoso? Você conhece-me a mim (ou a qualquer um dos outros participantes) para saber do que gosto?
Vá lá, tente raciocinar com um bocadinho de mais força, vai ver que não dói.

28 fevereiro, 2005 23:53  

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