20.2.05

O Público e a Música Contemporânea I

Este é um daqueles temas que são uma quasi aporia. A própria designação “música contemporânea” está esgotada. E no entanto quer apenas dizer actual, moderna ( “a de sempre” como dizia o Lopes Graça), enfim, música produzida hoje.

Comecei por delinear este post como resposta ao comentário do José Firmino do Conservatório de Música de Coimbra a este post, mas decidi publicá-lo por pensar ser este um tema de interesse mais generalizado.

É verdade que a música de Sciarrino, Feldman ou Lachenmann não enche estádios. Há, portanto, uma razão quantificável para não a programar. Esta música não é simplesmente rentável como é um concerto dos U2. Continuando esta lógica chegaríamos facilmente a Quim Barreiros. O que não é um argumento aceitável, suponho.

O mesmo argumento com que justifica a não-necessidade da música de Sciarrino volta-se contra si quando se fala, por exemplo, de uma ópera do “seu” Rossini - a ópera não é para todos e conheço muitas pessoas que também diriam que não estão para pagar milhões para uns quantos “privilegiados” irem a S. Carlos. Portanto, pôr o problema desta forma parece-me uma falácia para esconder uma outra questão.

É talvez necessário aceitar que esta música é uma música de minorias. É uma música que exige mais do ouvinte do que aquilo que é habitual ouvir num concerto de Debussy ou Poulenc. Exige mais não porque seja melhor ou pior, mas porque é diferente. E é esta diferença que é necessário ouvir. A condicão fundamental para tal é um mínimo de abertura àquilo que não se conhece. Sem isso, nada feito.

Se o destino destes compositores é ou não o esquecimento (suspeito não concordar consigo) não posso dizer que sim nem que não. Não sou nem profeta nem Deus. Posso apenas tentar dizer aquilo que há de novo na música deles. Mas para ouvir o novo é necessário escutar. Ouvir e viver.

Mas já agora, e uma vez que o senhor é professor (suponho) no Conservatório de Coimbra, ou seja, o seu salário é pago com dinheiro dos impostos, também tenho o direito de exigir que nas suas aulas não omita compositores segundo o gosto (o seu próprio) privando assim os alunos de uma parte do conhecimento que deveria transmitir mais ou menos imparcialmente (digo mais ou menos porque a absoluta imparcialidade não existe). É que a cada aluno deve ser dada a liberdade de decidir por si próprio. Caso contrário está a “cortar as pernas” aos alunos logo no início da sua formação.

Imagine o fascínio que não terá provocado ao jovem Debussy a audição de Tristão e Isolda em 1888… música estranha para a época, sem cadências, com melodias infinitas, grande como o Titanic...

A música destes autores não tem melodia. Mas tem outras coisas.

LP

5 Comments:

Anonymous Anónimo said...

O Titanic, se bem s elembra, afundou-se...

20 fevereiro, 2005 18:45  
Anonymous Anónimo said...

O Titanic, se bem se lembra, afundou-se...

20 fevereiro, 2005 18:45  
Anonymous João Miguel Pais said...

E o Tristão e Isolda?

21 fevereiro, 2005 18:03  
Anonymous Mafaldinha said...

Esses não se afogaram.....vão-os afogando aos poucos....eu às vezes também não me importava de estar afogada....debaixo de água é difícil ouvir má música.....

21 fevereiro, 2005 21:08  
Anonymous Anónimo said...

Não, meus caros, em Wagner, afogamentos só no Navio Fantasma...mas vocês de música a sério não percebem nada, não é? só do Cage e demais palhaçadas...tinha a ESML em melhor conta, espero que com os novos professores da nova geração que lá andam agora se comece finalmente a ensinar boa música!

23 fevereiro, 2005 18:28  

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