20.3.05

O Público e a Música Contemporânea III – Nikolaus Harnoncourt

A raiz deste fenómeno está na assíncronia entre os receptores e as obras produzidas. Hoje toca-se – isto é um facto – principalmente música histórica; e mesmo quando hoje se fala de “música contemporânea”, fala-se principalmente de obras de Webern e Schönberg ou Berg, compostas há 70 ou mais anos. Isto é como se fizéssemos uma crítica sobre Beethoven e falássemos sobre Bach. Simplesmente absurdo!

Esta situação é relativamente nova. A estreia de obras de Brahms, Bruckner ou Puccini – e isso chega até ao nosso século – foi na altura cem vezes mais importante do que a reinterpretação de Mozart ou Beethoven. Enquanto a arte é verdadeiramente parte da nossa vida actual, ninguém lhe passa pela cabeça ouvir música histórica.

Entretanto mudou a percepção da cultura: a arte não faz mais parte da vida humana, mas sim parte de enfeito [de ornamento], enquanto que para as pessoas de hoje são as coisas materiais que contam. A sua felicidade não é mais assente na possibilidade da sua imaginação ser estimulada e consolada, mas sim no que de material recebe e possuí. E assim fica atrofiada uma parte fantástica da vida. As pessoas apenas podem e querem pensar por ordem de ideias lógicas. Um ideia musical que não é lógica mas que talvez seja muito mais verdadeira já não as interessa. As artes passam assim a ser unicamente enfeite. E neste sentido de ornamento, as pessoas apreendem apenas as formas já aceites, as que não fazem doer.

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Nikolaus Harnoncourt

LP