16.4.05

Uma Casa (à) Portuguesa

Muita à portuguesa, nos vários discursos a propósito da inauguração da Casa da Música (CdM) foi referido o nome de Pedro Burmester aludindo ao seu eventual regresso. Se, por um lado, me parece haver justiça nesta alusão – Burmester é, sem dúvida, o pai de todo o projecto e que foi afastado de modo, no mínimo, muito questionável -, a verdade é que o tempo passa e agora há um novo director artístico vindo de outro mundo, sem fazer a mínima ideia em que imbróglio político se viria meter. Estes comentários parecem-me totalmente despropositados. Teriam sido oportunos na altura em que as coisas aconteceram. Agora, é tarde demais. A Casa foi inaugurada e o director artístico conseguiu num curto espaço de tempo pôr de pé a inauguração e, julgo, a programação – coisa que não é assim tão simples dada a distância com que as coisas a este nível são programadas. A regressar, o que aconteceria ao novo director artístico? Em que moldes é que Burmester aceitaria regressar? Como segundo director? Como director de qualquer coisa? E ao novo director, paga-se uma indemnização e diz-se adeus? A ideia de querer repor a justiça com o regresso de Burmester à CdM é enganadora e só põe a nu a ineficácia e impotência daqueles que na altura não actuaram como deviam.

Posto isto e para que não haja qualquer mal entendido, eu lamento o afastamento de Burmester da CdM. Burmester foi alguém de uma grande visão ao conceber este projecto. Deixou a sua carreira como pianista em stand by e ofereceu o seu imenso talento musical e humano a um projecto para a cidade e para o País, mas principalmente para a Música. Criou um ensemble de música contemporânea com um nível excelente (comparável aos melhores do mundo como o InterContemporain, o Musikfabrik ou o Ensemble Modern), criou o estúdio de ópera, o projecto pedagógico (com excelentes frutos), e com o seu impulso, motivação e inteligência contribuiu para a criação de uma referência da arquitectura moderna. Como se diz por aqui: Respekt! Como músico, resta-me apenas agradecer todo o seu empenho neste projecto. Uma dádiva de valor incalculável. A CdM tem tudo para se poder tornar nos próximos anos numa referência europeia na música. Faço votos para que o consiga.

PS: Se estiverem de acordo, assinem esta petição a favor da protecção da zona envolvente da CdM, o que também, já agora, é outra coisa muito à portuguesa…

LP