25.8.05

A técnica e o novo academismo

Recentemente tive a oportunidade de assistir a uma eloquente conferência no âmbito de um festival que reuniu todos os estúdios de música electroacústica alemães, bem com os estúdios de Basileia, Zurique e de Den Haag (*). O orador era precisamente deste último estúdio: Konrad Boehmer do Estúdio de Sonologia de Den Haag (outrora em Utrecht, o instituto tornou-se célebre, entre outros, devido ao trabalho de Gottfried Michael Koenig e a composição algorítmica). Boehmer é, para além de compositor, autor de numerosos artigos sobre composição, sobre estética, sobre música e política. Polémico e provocador mas ao mesmo tempo observador atento e crítico pertinente da situação da música actual, um dos seus artigos mais conhecidos tem o título de "Pensar a música anteontem ou Le Maître sans Marteau" (Musikdenken vorgestern oder Le Maître sans Marteau, in Musik-Konzepte H 100, IV/1998 (edition text + kritik) 5-30). A conferência – cuja transcrição foi agora publicada na revista NZM de Julho/Agosto (Neue Zeitschrift für Musik)– é uma crítica ao potencial academismo da música electroacústica. Uma velha questão especialmente pertinente neste contexto: a da técnica (neste caso tecnologia) versus pensamento musical. Boehmer fala da crescente complexidade dos “instrumentos” electrónicos e da prática impossibilidade de os compreender e controlar: “Quanto mais avançada é a técnica, mais o compositor está obrigado a se concentrar na organização técnica. O compositor tem, no entanto, apenas uma cabeça - se é que tem alguma.” Um aspecto que torna evidente o pensamento de Boehmer é o exemplo dos fractais. “Quando há cerca de 20 anos surgiu o fetiche dos fractais, saltaram imediatamente quintas e oitavas para a música electroacústica que soam como um “canto gregoriano progressivo“. Elevada e profunda tralha como cobertura da regressão estética.”

Todo o artigo põe em evidência a patente contradição entre a Ciência e a Arte personificada através da figura do acústico (segundo Pierre Schaeffer) e o músico; ambos ouvem o mesmo som mas os dois fazem-no de modos completamente diferentes. O cientista (o acústico) interessa-se pela redução do som em relação ao quantificável. O artista (o músico) classifica o som em relação ao seu potencial morfológico no contexto de uma obra.

O artigo termina com uma citação de Mann e um acrescento de Boehmer: <<“O artista é irmão dos criminosos e dos loucos” (e não do professor!)>>

3 Comments:

Blogger Roberto Iza Valdes said...

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04 novembro, 2005 05:57  
Blogger Roberto Iza Valdes said...

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28 novembro, 2005 21:42  
Blogger Iza Roberto said...

Este comentário foi removido pelo autor.

31 agosto, 2007 16:53  

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